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A actividade produtiva e a formação dos rendimentos

Esquema
  • Atualmente, cerca de 80 por cento da população mundial detém apenas 6 por cento da riqueza do mundo. Até 2016, 50 por cento da riqueza tenderá a ficar na posse dos 1 por cento mais ricos. No mundo do trabalho, os salários não acompanham a produtividade e a parte do rendimento que cabe aos trabalhadores tem vindo a diminuir.
    Relatório do Desenvolvimento Humano 2015
  • Nos dias de hoje, em pouco mais de uma década, a crise financeira mundial, a crise climática, a crise da desigualdade e a crise da Covid-19 demonstraram que a resiliência do próprio sistema está a colapsar. Os sistemas de amortecimento estão a atingir o seu limite. As ligações que em tempos foram maleáveis podem tornar-se frágeis, o que as deixa mais propensas a quebrar do que a curvarem-se, desestabilizando ainda mais o sistema terrestre.
    O contributo per capita dos povos indígenas da Amazónia para a mitigação das alterações climáticas, através das suas ações de preservação florestal, equivale às emissões per capita do percentil superior da distribuição do rendimento global.
    A ONU sintetiza através do Índice de Desenvolvimento Humano a posição relativa dos países, atribuindo a Portugal, em 2019, a 38ª posição, atrás da Letónia, Andorra, Polónia, Lituãnia, Chipre, Grécia, Emiratos Árabes Unidos,... http://hdr.undp.org/en/composite/HDI
    RELATÓRIO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO / 2020
A desigualdade pode medir-se pelo rácio S80/S20, relação entre a proporção do rendimento total recebido pelos 20% mais ricos e o auferido pelos 20% mais pobres:
A desigualdade é particularmente acentuada na generalidade dos países subdesenvolvidos. Entre os seus parceiros europeus, Portugal é um dos países onde a distribuição de rendimentos é mais desigual.
Ver no Google Drive. * Fonte: EUROSTAT.

Esta disparidade na distribuição do rendimento contribui para o reduzido dinamismo do mercado interno, que constitui um dos factores que dificulta o desenvolvimento da actividade produtiva, porque a generalidade das empresas de média dimensão serão forçadas a contar com o mercado externo para obterem custos unitários razoáveis.

Quando os empresários tomam a decisão de desencadear o processo produtivo, certamente esperarão que o valor das vendas da produção (outputs) seja superior ao custo dos consumos intermédios (bens que a empresa adquiriu a outras empresas, ou inputs). Da diferença entre estes, o valor dos outputs menos o valor dos inputs resulta no valor acrescentado por cada empresa, que é utilizado na remuneração dos factores produtivos (trabalho e capital). Como veremos com maior detalhe no estudo da Contabilidade Nacional, a soma dos valores acrescentados pelas empresas que se situam num território, corresponde ao respectivo Produto e Rendimento. O valor acrescentado constitui a base da riqueza criada, com a qual serão remunerados os factores intervenientes no processo produtivo (salários para o trabalho; rendas, juros e lucros para o capital, a estudar no ponto seguinte).

A quantificação da situação económica dos indivíduos mede-se frequentemente através do rendimento e da riqueza. O rendimento, constituindo um fluxo, é mais fácil de medir e encontra-se mais estreitamente relacionado com a estrutura da economia.

A riqueza das famílias, que corresponde a um stock, um valor estático, resultante da acumulação de sucessivas poupanças. Inclui rubricas corpóreas (casas, automóveis e outros bens de consumo duradouros, e terrenos) e activos financeiros (dinheiro, depósitos, acções e obrigações). As rubricas que têm valor positivo são designadas activos, enquanto as que correspondem a dívidas são designadas passivos. A diferença entre o total dos activos e o total dos passivos corresponde à riqueza ou capital próprio. Quando a riqueza é mobilizada para o processo produtivo, com o objectivo de a reproduzir designa-se capital.     Imagem

A maior parte do rendimento nacional cabe ao trabalho, através de salários, ordenados e vencimentos ou outros rendimentos complementares (vg. subsídios para a refeição ou para transportes). Evidentemente que a mesma pessoa pode auferir rendimentos de vários factores de produção. Por exemplo, pode receber um salário, juros de depósitos em bancos, dividendos de acções de um fundo mobiliário e rendas de um investimento imobiliário. Recorrendo à terminologia da unidade anterior (Preços e mercados) diremos que rendimento de mercado de uma pessoa é igual às quantidades de factores de produção vendidas por essa pessoa vezes o salário ou preço do factor.

O conceito de rendimento está intimamente associado à actividade produtiva, visto que corresponde ao dinheiro recebido como remuneração dos factores produtivos (trabalho e capital) detidos pelas pessoas. Mas o dinheiro disponível para utilização não se reduz ao rendimento, porque os indivíduos pagam e recebem quantias devido a outras actividades que nada têm a ver com a produção: pagam impostos, contribuições para a segurança social, multas diversas, etc., e recebem subsídios (abono de família, reforma, etc.). A estes movimentos pecuniários desligados da produção chamamos transferências, cabendo-lhes um papel importante na correcção da repartição primária dos rendimentos (ou seja, dos rendimentos dos factores produtivos) que será estudada brevemente, explicitando em que consiste a redistribuição dos rendimentos.

A repartição dos rendimentos pode ser injusta por muitos motivos: (1) em primeiro lugar muitos indivíduos apenas usufruem de rendimentos do trabalho, enquanto outros dispõem de variadas fontes de rendimento, porque a riqueza se encontra desigualmente repartida; (2) depois, verificam-se também grandes disparidades salariais em função das qualificações, dos anos de experiência, e de outras variáveis, como os diferenciais de compensação e a segmentação de mercados em grupos não concorrentes.



1. Refere duas medidas políticas propostas pelo RDH2015 tendo em vista a redução das desigualdades de oportunidades.

2. Partindo da definição do rácio S80/S20 explica qual seria o seu valor numa sociedade igualitária.

3. Observando o rácio S80/S20 nos países da União Europeia, relaciona a equidade na repartição do rendimento com desenvolvimento, comparando Portugal com dois países contrastantes.

4. Distingue rendimento de riqueza.

5. Distingue riqueza de capital.

6. Distingue rendimento de transferência.

7. Relaciona valor acrescentado com rendimento.

8. Explica como necessariamente, do desenvolvimento do processo produtivo/actividade produtiva resulta a repartição primária dos rendimentos.

9. Além das disparidades salariais, refere outro factor que contribui para uma repartição do rendimento injusta.

10. Explica as disparidades salariais em resultado dos seguintes factores:
a) Qualificações profissionais;
b) Anos de experiência;
c) Diferencial de compensação (poder de atracção das profissões);
d) Segmentação de mercados em grupos não concorrentes (carreiras/categorias profissionais).

Cálculo do valor da Produção – PIB

O valor da produção de um determinado território económico – geralmente um país – durante determinado período de tempo – geralmente um ano - diz-se o respectivo produto interno. Se não for descontado o valor referente a amortizações constitui o produto interno bruto (PIB).

Como se calcula o PIB?

Somar o valor da produção de todas as empresas do território levaria ao VBP, Valor Bruto da Produção, um PIB sobreavaliado (demasiado alto), porque como a produção de umas empresas entra como input no processo produtivo de outras, os designados consumos intermédios estariam a ser contabilizados várias vezes. Nisto consiste o problema da múltipla contagem, que poderá ser evitado adoptando um de dois métodos:

- Método dos produtos finais

- Método dos valores acrescentados

No Método dos produtos finais o PIB é igual à soma da produção vendida aos consumidores finais. Note que cada bem só poderá ser vendido para consumo final uma vez!

Pelo Método dos valores acrescentados calcula-se o valor acrescentado de cada unidade produtiva subtraindo os Consumos Intermédios ao Valor das Vendas, isto é:

Valor Acrescentado = Valor das Vendas – Consumos Intermédios

O valor do PIB será então igual ao somatório dos VA’s da economia. Nota que a dedução dos consumos intermédios também resolve o problema da múltipla contagem, porque a produção só é contabilizada na fase do ciclo produtivo que a originou, isto é:

PIB = Valor bruto da produção – Consumo intermédio

Evidentemente que os dois métodos têm que dar o mesmo resultado, senão te enganares nas contas.

Exemplo:

Supõe uma economia extremamente simplificada com apenas três empresas:

- Produtor de milho, que a partir do nada produz e vende 100 unidades monetárias de milho ao Produtor de farinha;
- Produtor de farinha, que comprou as 100 um de milho e vendeu 150 um de farinha ao Produtor de broa de milho;
- Produtor de broa de milho, que comprou 150 um de farinha e vendeu 400 um de broas de milho ao consumidor final.

Seguem-se os tês deste exemplo, bem como o cálculo do PIB pelos dois métodos indicados.

O Quadro de Entradas e Saídas é um modo mais elegante de representação.


1. Define PIB.

2. Explicita o problema da múltipla contagem.

3. Explica como se calcula o PIB pelo método dos produtos finais.

4. Explica como se calcula o PIB pelo método dos valores acrescentados.

5. Utilizando estes tês, determina o valor do PIB pelos dois métodos estudados na economia composta pelas operações abaixo indicadas:
  • A Empresa Piscatória pescou peixe que vendeu à Empresa de Conservas pelo valor de 3.000 €
  • A Empresa de Conservas transformou o peixe anteriormente adquirido em conservas que vendeu ao Restaurante por 5.000 €; No processo de fabrico gastou energia que adquiriu à EDP por 500 €
  • O Restaurante vendeu o peixe ao público por 8.000 €; o Restaurante também consumiu energia da EDP no valor de 200 €
6. Constrói um quadro de entradas e saídas representando as mesmas operações, no mesmo ficheiro. (Alguns exemplos de QES encontram-se aqui)



Cálculo do PIB em Exames Nacionais